5 · Tipologias e sinais — como o ComplianceHub pensa
Este é o capítulo mais importante do manual. O que diferencia o ComplianceHub de uma consulta de bureau não é a quantidade de dados — é o que ele cruza sozinho e o que ele se recusa a afirmar sem lastro.
5.1 As três forças de um achado
Todo achado carrega a força da evidência que o sustenta. Leia sempre a etiqueta antes de tirar conclusão:
| Força | O que significa | Exemplo |
|---|---|---|
| Confirmado | Os dois lados do cruzamento são documentais (CPF/CNPJ na própria fonte) | Doação registrada no TSE × contrato no Portal da Transparência, mesmo CNPJ |
| Revisar | Os fatos são documentais, mas a LEITURA é inferência — cabe a você confirmar | O mesmo advogado em dois processos: a OAB é documental; a coordenação é hipótese |
| Nome (homônimo possível) | O cruzamento foi por nome, sem documento — pode ser outra pessoa | Sanção internacional casada por nome; o painel avisa o percentual de correspondência |
Regra da casa: achado por nome nunca vira acusação. O sistema marca, você verifica.
5.2 As 8 tipologias automáticas
O motor avalia estas regras sempre que os dados necessários estão presentes. Cada regra tem três estados:
- Executa — os dados exigidos estão no caso: a regra roda e, se o padrão existir, gera o achado.
- Sugere — parte dos dados está presente. A regra NÃO roda; ela vira uma oferta: "se adquirir X (custo Y), posso confirmar Z". Nada é comprado automaticamente — a decisão de gastar é sempre sua.
- Silencia — nada relevante; a regra não aparece.
Família CONFRONTO — histórico × oficial
A ideia: o dossiê traz o registro histórico do bureau E a certidão oficial emitida ao vivo, na mesma consulta. Quando os dois discordam, isso é informação — não erro.
CF1 · QSA do bureau diverge da certidão da Receita ao vivo (PJ · revisar) Sócio ativo no histórico do bureau não consta no QSA oficial emitido ao vivo — ou vice-versa. Saída não refletida ou entrada não registrada. A certidão da Receita não expõe CPF, então o confronto é por NOME — por isso a força é "revisar", nunca "confirmado". Exige: quadro societário (bureau) + certidão de QSA da Receita (on-demand).
CF2 · Situação cadastral diverge da certidão ao vivo (PJ · confirmado) O bureau diz uma situação ("ATIVA") e a certidão da Receita, emitida agora, diz outra ("BAIXADA") — empresa baixada operando ou cadastro desatualizado. Os dois lados são documentais: a divergência em si é o achado. Exige: dados cadastrais PJ + certidão de situação da Receita (on-demand).
Família FACHADA — capacidade × contrato
B1 · Empresa recém-aberta com contrato federal (PJ · confirmado) Contrato com órgão federal assinado com menos de 12 meses de existência da empresa — padrão clássico de empresa constituída para o contrato. Fundação e contrato são ambos documentais, mesmo CNPJ. O achado diz as duas datas e a distância entre elas. Verifique capacidade operacional e histórico dos sócios. Exige: dados cadastrais PJ + contratos federais (fonte pública, R$ 0).
Família CAPTURA PÚBLICA — dinheiro político × dinheiro público
CP1 · Doador de campanha recebendo recurso público (PF e PJ · confirmado) A entidade — ou seus sócios, por documento — doou a campanhas eleitorais E recebe contratos de órgãos federais. É o cruzamento que nenhum bureau comercial entrega. O achado traz valores, anos de eleição e órgãos contratantes. Verifique conflito de interesse e motivação da contratação. Exige: doações eleitorais (da entidade OU dos sócios) + contratos federais.
Família REDE — quem divide o quê com quem
COAB · Entidades no mesmo domicílio (PF e PJ · revisar) Duas ou mais entidades do caso dividem o mesmo código de domicílio (a fonte marca o domicílio; não é comparação de texto de endereço). Coabitação entre não-familiares em contexto societário é sinal clássico de interposição. O score desconta quando todos são familiares — família morando junto não é achado.
CONT · Empresas no mesmo endereço de contador (PF e PJ · revisar) Duas ou mais empresas do caso usam o MESMO endereço que a fonte marca como provável contabilidade — o hub clássico de empresas de papel. A marcação é heurística da fonte, por isso "revisar": conferir operação real de cada uma.
ADV · Advogado comum entre processos do caso (PF e PJ · revisar) O mesmo advogado (mesma OAB) atua em dois ou mais processos que conectam entidades distintas do caso — padrão de coordenação jurídica que merece leitura conjunta dos processos. A OAB é documental; a coordenação é a inferência que você valida.
Família INTERPOSIÇÃO — o tempo conta a história
D4 · Sócio saiu logo após a distribuição de processo (PJ · revisar) Um sócio deixou o quadro societário até 24 meses depois da distribuição de um processo contra a empresa — padrão temporal de blindagem patrimonial. As datas são documentais; a motivação é inferência. O achado nomeia o sócio, o processo e as duas datas.
5.3 Sinais do grafo (UpLink)
Além das tipologias, o grafo roda detectores estruturais sobre o mapa de vínculos:
Ciclo societário — A é dona de B, que é dona de C, que é dona de A. Estrutura circular de participação, usada para ocultar beneficiário final.
Concentração de endereço — um endereço com muitas entidades (e ≥2 PJ): perfil de endereço-fachada ou de contador.
Intermediário (ponte) — a pessoa/empresa que conecta dois grupos que não se falam diretamente. É o achado clássico em rede de licitação.
Comunidades — grupos densamente conectados dentro do caso, para leitura por blocos.
Correlações entre casos — a mesma entidade, sócio recorrente, contato ou processo aparecendo em investigações diferentes do seu ambiente.
Quando o grafo é grande demais
Detectores pesados têm teto de segurança (o cálculo ficaria lento no seu navegador). Acima do teto o sistema diz "não avaliado: grafo acima do teto" — tanto na aba Sinais quanto no relatório. "Não avaliado" e "nenhum achado" são coisas diferentes; o produto nunca confunde os dois.
5.4 Alertas compostos do dossiê
No dossiê, além dos alertas por fonte, o sistema cruza fontes e emite compostos — por exemplo, concentração de risco: restrição oficial vigente (TCU/IBAMA) + processos + dívida ativa no mesmo alvo. Compostos aparecem no topo do painel e no sumário executivo, mas não somam pontos em dobro no score: eles sintetizam evidência que já pontuou.
5.4.1 Tabela-resumo: as 8 tipologias de relance
| Id | Família | Detecta | Sujeito | Força | Limiar |
|---|---|---|---|---|---|
| CF1 | Confronto | Sócio do bureau ausente na certidão da Receita (ou vice-versa) | PJ | revisar (match por nome) | — |
| CF2 | Confronto | Situação cadastral do bureau ≠ certidão ao vivo | PJ | confirmado | — |
| B1 | Fachada | Contrato federal com empresa recém-aberta | PJ | confirmado | < 12 meses |
| CP1 | Captura pública | Doador de campanha recebendo contrato federal | PF+PJ | confirmado | — |
| COAB | Rede | Entidades no mesmo domicílio | PF+PJ | revisar | desconto p/ família |
| CONT | Rede | Empresas no mesmo endereço de contador | PF+PJ | revisar | ≥ 2 empresas |
| ADV | Rede | Mesmo advogado (OAB) em processos que conectam o caso | PF+PJ | revisar | ≥ 2 processos |
| D4 | Interposição | Sócio saiu após distribuição de processo | PJ | revisar | ≤ 24 meses |
Os limiares são versionados: se um limiar mudar numa atualização do produto, o achado registra a versão da regra que o gerou — um achado antigo nunca "muda de opinião" silenciosamente.
5.5 O que o sistema NUNCA faz
- Não compra dados sozinho. Estado "sugere" é oferta com preço; a confirmação é sua.
- Não afirma vínculo sem lastro. Aresta tracejada = correlação inferida, sempre rotulada; nunca substitui uma aresta documentada.
- Não esconde incerteza. Match por nome leva selo; nó fundido de dois alvos sem documento leva aviso de possível homônimo; fonte com cobertura parcial diz "ausência não atestada".
- Não decide por você. Todo achado carrega a frase que o justifica e a fonte de onde veio — a conclusão é do analista.